A Hipocrisia da Matéria

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O Sertão

O Sertão...sequidão
em meio a um mar
de luz onde a morte
não dá lugar à vida.
Um calor escaldante
que determina
a frieza do lugar.
As folhas dão lugar
aos espinhos
que retêm a umidade
- que é pouca -
em meio a fervura
da areia
quente e morta.

Lugar sofrido;
sofrido e esquecido
pelos que vivem
e estão mortos,
pelos que muito possuem
mas pouco têm.

Por fora são enormes
e por dentro
insignificantes
como um grão de areia
no deserto.
Vivem em grandes centros,
onde a civilização impõe-se
à Natureza. 
E esquecem um lugar
distante,
onde a Natureza impõe-se
ao homem como a verdade
impõe-se ao não lúcido.

No Sertão, a vida luta
para não continuar vivendo
morta,
pois como nos centros,
as pessoas morrem
a cada dia, mas neste último
se morre por incapacidade
e não por impossibilidade.

Um com chinelo, o outro descalço;
um vivo morre, um morto tenta viver;
um corre, o outro se arrasta;
um pensa nas sobras
e o outro nem pensa.
Também pensar em que?

 

Linda

O amor é a mola mestre
na engrenagem da vida
Amava mas não por completo
Hoje brotou uma rosa
em minha vida
Linda, meiga, bela
Um presente da vida
Com ela estou
todas as vinte e quatro
horas do dia
Seu olhar mágico
me enfeitiça
Fico vulnerável
Sonho acordado
Perco o raciocínio
Às vezes, a vejo tão próxima
E, de repente, foge-me
por entre os dedos
O que sinto, tal papel
não pode suportar
Infelizmente,
minhas mãos não me servem
tão bem quanto minha mente
Porém, basta olhar-me
e todas as suas dúvidas
serão desfeitas
O amor que me ilumina
Amor por todo ser
Amor da minha vida
Amor que se divide
entre a menina
e a mulher
que há dentro de você

 

Grandes Vozes

São muitos os que dizem conhecer a vida
Criaram uma farsa
Vivem nela
E também nos forçam a vivê-la
Uma vida cheia de sacrifícios
De castigos
Repudiam nossos erros
Como se tivéssemos nascidos sábios
Cortam nossas assas
Todos acham possuir grandes vozes
Vivem seus insignificantes mundos
E os outros nada mais são
Do que loucos

 

Dilúvio

É! Aquela nuvem negra não mais vai-se embora
Agora toma o céu por completo
O vento se foi e com ele
parece que também todas as minhas esperanças.
Começam os trovões, e com eles
vem a chuva.
A chuva é fraca.
Muitos lugares alagados,
as águas sobem vários metros,
muitos morrem afogados...
eu ainda persisto.
Não sei por quanto tempo -
pouca força tenho comigo.
Estou exausto e minhas mãos, atadas.
À frente, uma vida se indo;
abandonada por negligentes.
Estamos realmente sós.
Somos egoístas demais.
Não posso fazer com que o Sol
volte a brilhar no horizonte.
Mas posso fazê-lo brilhar dentro de mim.

 

Interior

O que está além da vida,
nada se sabe.
Se a alguém isso já foi dito,
não duvido;
mas às suas boas novas
taparei meus ouvidos
e esperarei que eu mesmo descubra -
ou será que deveria dizer:
que me seja descoberto.
As palavras nos enganam,
nos traem - o homem
é um mal para si mesmo.

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